quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Ser jovem

Não há como não ser tocado profundamente pela tragédia que ocorreu a centenas de jovens em Santa Maria. Jovens da minha faixa etária, estudantes universitários como eu, jovens adultos iniciando suas vidas acadêmicas, seus projetos pessoais, experimentando a liberdade e as vantagens do início desta intrigante vida adulta - exatamente como eu... Porque ser jovem é estar vivo em uma intensidade sem medida, é ter esperança de que tudo aquilo que sonhamos se tornará realidade, é ansiar viver, viver, viver... estar com os amigos, dançar, cantar, pular, brindar... É festejar essa vida tão cheia de energia e celebrar o mundo de possibilidades que se apresenta em nossa frente. É pensar no futuro, nos anos que ainda estão por vir e em tudo o que queremos fazer, conhecer, sentir, aproveitar... Enfim, VIVER! 

Nossos dias são permeados de reticências, sempre há mais. Sempre é possível que se viva mais, que se façam mais coisas, que se passe mais tempo com os amigos, que se sonhe mais. Tudo é plural. Tudo é vida. É assim que me sinto com esta idade que tenho, como jovem universitária que apenas se preocupa em aproveitar ao máximo esta vida, este tempo curto em que não compartilhamos das mesmas preocupações de nossos pais... E eles se preocupam! Como se preocupam com a gente! Com nossa ânsia por vida, por sair de casa, por ser livre... Eles já viveram o que vivemos, sabem dos riscos... Riscos que pouco medimos, calculamos... Riscos que às vezes nem passam por nossa cabeça como, por exemplo, o risco de incêndio. Sabemos que não se deve dirigir alcoolizado, que é preciso ter muito cuidado com aproximações estranhas, etc. Mas quem em uma festa, em uma balada, pensará na possibilidade de um incêndio devido ao entretenimento? E este, como tragicamente percebemos, é um risco tão possível quanto os “tradicionais” de que tanto nos falam nossos pais e a mídia.

Mas ter consciência de absolutamente tudo o que pode dar errado é tarefa de nossos pais, os “coroas” que nos enchem o saco, que não largam do nosso pé, que jogam muitos baldes de água fria em nossos planos mirabolantes... Os pais que tanto nos pedem para termos cuidado, que tanto nos orientam, que tanto oram por nossa segurança e saúde, que passam horas sem dormir pensando em nosso bem-estar... Jamais conseguirei mensurar o tamanho da dor das centenas de pais que perderam seus amados e, em muitos casos, únicos filhos. Filhos que eram motivo de orgulho, felicidade, razão pela qual trabalharam tanto para prover-lhes as necessidades, educá-los, criá-los para a vida da melhor forma possível. E agora restam apenas as lembranças, fica o amor infinito, a saudade que aumentará a cada dia, o sentimento de ausência, de perda e de dor. Tanta juventude e vontade de viver que findaram terrivelmente, justamente em um local em que jovens se reuniam para celebrar este tempo, a beleza, a curiosidade, a alegria e a liberdade. É muito triste ver tanta vida em seu início acabar de forma brutal, estúpida, por negligência, por dinheiro... Por que tantas vidas desperdiçadas? Por que tanto sofrimento, tristeza e horror? Tão perto de nós, com jovens iguais a nós. 

O medo pela falta de segurança não faz parte de nossas vidas tanto quanto permeia a de nossos pais, mas, diante deste cruel acontecimento, tenho certeza de que, pelo menos por um bom tempo, uma balada não propiciará a mesma diversão de antes... O fantasma do medo estará também ali... A sensação de que algo pode dar errado, a desconfiança, a lembrança daqueles que perderam suas vidas por estarem buscando aquilo que é tão comum aos jovens nos acompanharão a partir deste evento doloroso... Não há como apagar as imagens de um pesadelo real, que aconteceu a nossos conterrâneos, a gente como a gente, a vidas cheias de esperança, a vidas semelhantes... 

Só peço a Deus que as almas destes jovens estejam em paz e sejam recebidas no melhor dos lugares; só peço a Deus que, de alguma maneira, as famílias possam ser confortadas... Só peço a Deus que a vida continue, mas que nunca nos esqueçamos de que poderia ter sido com a gente ou com alguém de nossa família e que a dor que se espalha em nosso Estado poderia estar ainda mais próxima de nós... Que Deus proteja e abençoe a todos nós!

Junie Nunes de Souza

* Texto que publiquei no dia 28/01 em minha página do FB.