quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Ella

O sonho é um ideal. Um idealista não vê a verdade, apenas sua ilusão da verdade. Ele se fixa nela.” 
Stella Adler

Ella era uma artista e morreu. Primeiro por tentar enquadrar-se. Sua alma em guerra jamais deveria ter se submetido à paz. As turbulências que evocavam de seu ser nunca serviriam para a vida doméstica, porém, teimava em ser como as outras... em ser melhor do que as outras naquilo que não lhe era natural.

O volante sempre esteve seguro sob suas mãos, Ella sempre soube segurar as rédeas, manejar o chicote e desferir golpes... Não se importava em atingir, magoar, estraçalhar, humilhar... Não tinha problemas quanto a isso. Mas sua alma sofria quando alguém ousava recriminá-la! Quando tal fato ocorria dali nascia uma vítima, a mártir mais sofredora...

Tinha alma de artista. Produzia cores, chamava a atenção por onde quer que passasse, agradava aos olhos, sabia encantar, também sabia ser exemplo... Despertava no coração de outras jovens a esperança de ser livre, de alcançar grandes conquistas, de dirigir a própria vida... Porém, tentou ser a dona de casa, tentou encontrar companhia que lhe correspondesse as expectativas, tentou seguir a moral e os valores recebidos de sua família patriarcal... Talvez tenha sido este o maior erro que poderia ter cometido. Erro que a levou por caminhos tortuosos, erro que a fez perder suas cores, o brilho que havia em sua personalidade tempestuosa...

Ella sabia que não poderia viver ao lado de um homem e ser a esposa ideal, jamais abriria mão de sua beleza e seus sonhos para viver o por moças comuns tão sonhado "felizes para sempre"... Deveria antes ter buscado o "encantada e livre para sempre"... Mas foi só livrar-se da primeira prisão que a teimosia acabou por lhe preparar uma nova armadilha...

Poderia ter se erguido daquela queda, evitado novo erro... mas, a teimosia! Ah, a teimosia! Como deixou enganar-se, como deixou apagar-se... Isso, não sabemos. Mas o fato é que a artista morreu. Nem recebemos convite para o velório. Quando percebemos, seu corpo jazia frio e a putrefação se espalhava, poluindo o ar e levando embora de nossas lembranças aquela alma perturbada de artista sonhadora.

Hoje não se houve mais suas músicas, não se admira mais os seus desenhos, não nos encantam mais as suas danças, não nos deleita mais a sua voz... Morta. Ella é apenas um cadáver de um corpo que outrora representava vida, interpretava a vida! Ella... Ella morreu e não sabe, olha-se no espelho e não se reconhece... Os vermes comem-lhe a face, enquanto as mãos permanecem algemadas... impedidas de defenderem o pouco que sobrou de sua pele carcomida. Ella não tem mais voz, perdeu-se sob o domínio de outras vozes que não cessam de lhe inferiorizar, de lhe atemorizar, de lhe ludibriar... Ella perdeu o sentido. Ella não nos dá mais esperança. Ella é uma esperança perdida.

Junie Nunes de Souza

* Em lembrança sobre quem um dia ela  foi e em lamento sobre quem ela não é mais.