domingo, 20 de maio de 2012

O que foge de mim...


A melhor forma que tenho para expressar-me insiste em abandonar-me. Minhas palavras estão escorregadias; elas se metem em qualquer vão e me deixam aqui em um silêncio ruidoso. As ideias ainda persistem em me acompanhar, mas não consigo vê-las sem transpô-las ao papel... E a mão falha e o vazio impera e a terra adormece. 

Incapaz de exercer a tarefa, eu me canso facilmente. O solo, antes fértil, nega-se a florescer para mim. Observo fixamente as mudanças climáticas e percebo que é aí que residem meus problemas. Temperamento inconstante, furacão de sentimentos, os pés enraizados demais, a mente em perigo constante de queda por querer alcançar as nuvens... 

Chega o terceiro parágrafo e os sinais começam a apitar. Confusão de luzes e cores que cegam, os membros paralisam e eu começo a inquietar-me. Nada parece bom, nada é digno... Um mosquito para na parede e juntos paramos, ambos à espera do momento certo. 

As últimas linhas são as piores, as mais apressadas, as que menos dizem... Há muito sobre o que pensar, o que dizer, o que notar... Mas o conteúdo é tanto que não há um começo e não há um fim. Desenrolo o novelo de lã só para descobrir que existem nós que não consigo desatar. 

As cores do meu quarto me convidam a sonhar, as teclas do meu notebook também... Mas não me concentro; olho ao redor e leio títulos e títulos de obras de arte, observo as pilhas de papel que devo ler... Tudo me angustia, tudo me desespera. Minha razão perde a sensibilidade, o encadeamento das ideias... e tudo vira uma mistura incompreensível. 

A falta da doçura combinada com a acidez deixa meu espírito abatido. Estou em desequilíbrio. Onde está a paz e a inconveniente esperança? Só restou o medo ordinário de que as coisas fiquem pela metade, de que os objetivos não sejam cumpridos, de que a entrega seja maior que as responsabilidades... 

O sonho se desfaz a cada amanhecer, a música é alta demais e machuca os meus ouvidos. Não quero acordar, não quero olhar mais uma página de papel em branco esperançosa pela minha vontade de tocá-la e preenchê-la. Tem dias que acabam sem cor, porque, às vezes, me visto de preto e branco e saio por aí atirando em pássaros. Invejo-os porque eles têm asas e tento trazê-los ao chão. 

Tudo em vão, tudo em vão... A página ainda está em branco. Eu ainda não acordei. Eu ainda não sonhei.