quarta-feira, 30 de maio de 2012

Grite...

Não quero o vazio do silêncio,
ele já me persegue há tempo demais.

domingo, 20 de maio de 2012

A casa de três...

A casa nunca está vazia. A casa está cheia de vozes. Vozes que não pertencem àquele lugar. Vozes estranhas que tentam se infiltrar, conquistando uma intimidade que deveria ser preservada pela família. Mas três pessoas não se satisfazem, três pessoas podem ocupar para si uma peça da casa individualmente, três pessoas podem viver sob o mesmo teto sem se conhecerem... Porque essas três pessoas apenas cumpriram compromissos, apenas preencheram papéis sociais e, agora, elas simplesmente mantêm suas interpretações. Cada um sabe de si, cada um acha que é o melhor, todos reclamam de todos... Porque essas três pessoas não constroem pontes entre si, apenas levantam tijolos para cima sem olhar para os lados. As estruturas não se firmam, os cofres resplandecem... Mas as almas adoecem. Há acordos, há tratados, há contratos... A burocracia rege, as relações se enfraquecem e a tempestade lá fora, aos poucos, se infiltra nos domínios da família - ou, se assim preferir pensar, se infiltra nos domínios dessa gente que se agrega ignorando as consequências do futuro.

O que foge de mim...


A melhor forma que tenho para expressar-me insiste em abandonar-me. Minhas palavras estão escorregadias; elas se metem em qualquer vão e me deixam aqui em um silêncio ruidoso. As ideias ainda persistem em me acompanhar, mas não consigo vê-las sem transpô-las ao papel... E a mão falha e o vazio impera e a terra adormece. 

Incapaz de exercer a tarefa, eu me canso facilmente. O solo, antes fértil, nega-se a florescer para mim. Observo fixamente as mudanças climáticas e percebo que é aí que residem meus problemas. Temperamento inconstante, furacão de sentimentos, os pés enraizados demais, a mente em perigo constante de queda por querer alcançar as nuvens... 

Chega o terceiro parágrafo e os sinais começam a apitar. Confusão de luzes e cores que cegam, os membros paralisam e eu começo a inquietar-me. Nada parece bom, nada é digno... Um mosquito para na parede e juntos paramos, ambos à espera do momento certo. 

As últimas linhas são as piores, as mais apressadas, as que menos dizem... Há muito sobre o que pensar, o que dizer, o que notar... Mas o conteúdo é tanto que não há um começo e não há um fim. Desenrolo o novelo de lã só para descobrir que existem nós que não consigo desatar. 

As cores do meu quarto me convidam a sonhar, as teclas do meu notebook também... Mas não me concentro; olho ao redor e leio títulos e títulos de obras de arte, observo as pilhas de papel que devo ler... Tudo me angustia, tudo me desespera. Minha razão perde a sensibilidade, o encadeamento das ideias... e tudo vira uma mistura incompreensível. 

A falta da doçura combinada com a acidez deixa meu espírito abatido. Estou em desequilíbrio. Onde está a paz e a inconveniente esperança? Só restou o medo ordinário de que as coisas fiquem pela metade, de que os objetivos não sejam cumpridos, de que a entrega seja maior que as responsabilidades... 

O sonho se desfaz a cada amanhecer, a música é alta demais e machuca os meus ouvidos. Não quero acordar, não quero olhar mais uma página de papel em branco esperançosa pela minha vontade de tocá-la e preenchê-la. Tem dias que acabam sem cor, porque, às vezes, me visto de preto e branco e saio por aí atirando em pássaros. Invejo-os porque eles têm asas e tento trazê-los ao chão. 

Tudo em vão, tudo em vão... A página ainda está em branco. Eu ainda não acordei. Eu ainda não sonhei.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Luísa...


Luísa,

Dos teus olhos emana a simplicidade da flor...
Adorada criança,
Um encanto, um amor...

Enche-me de esperança.
Hei de amá-la sempre,
Minha querida irmã.

Se poetisa fosse,
Escrever-te-ia um poema...
Porém, domino pouco essa arte
Que sabe descrever com tamanha grandeza
A riqueza da vida
E a beleza da alma.

Luísa, querida!
Só posso dizer-te o que vem de dentro,
Aquilo que somente o coração de quem a tem tamanha afeição pode expressar...

Impossível é falar de coisas pequenas,
Quando a vida que nos une
É de tamanho esplendor...

Do ventre materno,
Só fruto e amor.
A vida nos uniu,
O caminho desuniu...

Mas o que é o sentimento
Se não um movimento para
Ligar aqueles cuja história
Uma vez quis separar?

Se crianças nós formos,
Jamais esqueceremos
Que o que realmente importa
É o coração a pulsar.

(Texto que escrevi para minha irmã quando ela tinha 10 anos.

Octópode

Tremendo de frio, ela sai do banheiro:
toalha enrolada no cabelo e vestida com seu roupão rosa.
Pequenas gotas d'água caem no chão quando ela se movimenta...
O vapor do banho a acompanha;
e o ar gelado do outro cômodo a machuca.
Como aquilo foi parar ali?
Havia ela passado a noite inteira escondida?
Na entrada do quarto, a invasora:
negra, octópode, rechonchuda,
tamanho semelhante ao de uma moeda de dez centavos...
- Que não pule em mim!
PLAFT!
Seu chinelinho, vermelho e com um delicado tope da Melissa, a esmaga sem piedade.
Entra, finalmente, em seu quarto...
Desesperada por um tecido quente que a protegesse do frio...
Era uma vez o medo, era uma vez a aranha.

Junie Nunes de Souza

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ácido...

Hoje as lágrimas estão soltas,
mas insistem em escorrerem para dentro...
Ácidas, como o limão,
atingem como balas o músculo envelhecido,
que bate, às vezes, forte demais para o meu
fôlego doentio...


Junie Nunes de Souza

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cartas na mesa...

Só faltava o topo,
mas o vento soprou...
As ideias caíram.
As certezas se foram.
E as cartas?
Todas na mesa.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser sua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sempre!

Obrigada, Deus.