sábado, 21 de abril de 2012

Meu primeiro conto...

* Não sou muito de escrever textos literários, falta-me muita prática. Há tempos que queria escrever um conto, mas nunca conseguia terminar os que começava. Foi preciso uma comoção na vida real, um desabamento de sentimentos e uma enorme criatividade para esconder o verdadeiro sentido de minhas palavras. A história acabou aparecendo de maneira inesperada, numa aula que pouco aproveito. Queria gritar algumas verdades, mas, provavelmente, seria considerada uma louca vulgar. Então, a primeira ideia é transformar a verdade em metáfora para que os segredos permaneçam guardados. O conto ainda está em processo de aprimoramento. Aqui está a primeira versão:


RAÍZES VERMELHAS
Junie Nunes de Souza

     Adriano entrou em cena e deu seu show, deixando a plateia extasiada pela sua presença e interpretação. O texto era medíocre, mas isso era o de menos. As mulheres queriam ouvir a voz de Adriano e sua maneira ruidosa de dialogar e narrar os fatos que levavam ao vislumbre de ações, exigindo o desdobramento de seu corpo de tal forma que fazia com que os peitos das senhoras sentadas na última fileira arfassem.
     Atingira o auge. O topo para o menino pobre do interior que sonhava em subir nos palcos poderia almejar. De teatros sujos, infestados por ratos e baratas, Adriano chegara ao Teatro Municipal e era aplaudido de pé ao final de cada apresentação.
     As luzes, enfim, se acenderam e seu brilho, agora, parecia eterno. No entanto, o escuro volta e meia estava a sua espera, no vazio que sua vida se transformava quando o barulho dos aplausos cessava. Tinha medo de olhar para trás e encarar tudo o que havia deixado. Andava cercado de amigos de bar, bons companheiros para piadas, bebidas e cigarro; mas, a cada madrugada, voltava sozinho para casa e recebia nauseado o silêncio que o atormentava.
    Era assim que eles surgiam... No silêncio de sua solidão... O par de olhos verdes circundado por raízes vermelhas sempre aparecia em seus sonhos embriagados. Era inútil embebedar-se, o torpor aumentava a intensidade dos gritos que se seguiam ao olhar que o fazia lembrar-se de todos os seus medos e arrependimentos. Não conseguia livrar-se daquilo.
     O passado havia morrido quando ele tomou a decisão que mudara a vida daquelas pessoas que ele maculara.  Tomado por uma vontade de ter aquela mulher para si, ele usou sua grandiloquência – já bem desenvolvida à época – e conquistou para si a graça e a beleza de Ana. Alugou um casebre para viverem juntos e por lá ficaram até o nascimento da criança.
     O barulho de louças quebradas foi o último som que escutou vindo daquela casa. Nunca mais vira Ana, pois lhe tirara a vida e desaparecera sem remorso. Entregou o valor combinado e olhou para o pacote uma última vez: foi neste momento que ele viu pela primeira vez o par de olhos verdes de que tão facilmente abriu mão.
     Antes de cada apresentação, lavava o rosto e olhava para o espelho tentando encontrar a saída daquele pesadelo. Tudo o que via era aquele par de olhos verdes, envelhecido e contornado pela marca dos vícios de sua vida. Os mesmos olhos que sempre iriam lhe atormentar em sonho.