quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O grito da mulher selvagem...

    Mulher não é jardim, mulher é floresta. A selva nasce em seu interior e mostra sua face na superfície feminina. No entanto, lutando contra a natureza, a mulher insiste em ser jardim. Não é sua culpa. A cultura se desenvolveu de tal forma que a opinião masculina prevaleceu e a mulher foi condenada a se transformar em jardim para sempre. Porém, o que ninguém sabia é que é impossível ocorrer tal metamorfose de forma permanente. Nós, mulheres selvagens, quando disfarçadas de jardins, estamos fadadas, assim como a Cinderela, a voltarmos a nossa natural e antiga forma. 
    Nossa floresta interior esconde domínios que nem sequer imaginamos que existam e, de repente, acontece uma explosão e assistimos ao surgimento de uma nova erva daninha em nosso quintal. Aguentamos caladas, mostrando um sorriso para o mundo a nossa volta, mas um grito ecoa nas raízes da floresta e a mulher selvagem que existe em cada uma de nós se desespera. Enlouquecida, a mulher vai em busca das melhores armas de seu arsenal para lutar contra as pragas que despontam em seu jardim. A tarefa é árdua. O mato silvestre parece não ter fim. As rosetas machucam... E a mulher selvagem uiva de dor.
    Depois de tanto lutar contra sua natureza, a mulher selvagem avalia os resultados: ainda está insatisfeita. Seu jardim não está tão florido, os frutos de suas árvores são pequenos, a grama não exibe a coloração esverdeada desejada, as borboletas que aparecem não são as mais bonitas e raras... Nenhum de seus artifícios parece contentá-la e, em seus olhos, a mulher selvagem exibe chamas, pois ela sabe que seu trabalho durará pouco e logo o desflorestamento recomeçará. A mulher selvagem está cansada de se fantasiar de flor.
    Bom mesmo seria assumir e exibir, sem vergonha, a sua floresta. Expor suas plantas nativas, colher os frutos silvestres e soltar as feras. A mulher selvagem quer correr descalça sem se preocupar com a dor, quer deixar o mato tomar conta de tudo e os galhos crescerem em paz - sem podas -, impedindo os olhares curiosos de visitantes indesejados... A mulher selvagem quer mostrar sua natureza feroz e destemida, provando que sua alma jamais poderia se satisfazer estando presa em um limitado e domável jardim. Sob o disfarce que exibe, a mulher selvagem grita, pois sabe que não há muito mais a fazer.

Junie Nunes de Souza