domingo, 31 de julho de 2011

Um caminho para o lar...

Então, quando ela abriu os olhos, viu diante de si um espaço vazio. No começo, estava um pouco insegura, pois duvidava que ali poderia ser o lar perfeito para ela. Na verdade, o lar que ela imaginava desde que era criança nunca se concretizou e ali, dentro daquelas paredes brancas e sobre o chão frio da cerâmica alaranjada, ela tentaria construir o seu próprio mundo doméstico com tudo aquilo que supostamente um lar deveria representar. Os trabalhos começaram há alguns anos e talvez leve mais um ou dois anos para que tudo esteja no lugar certo. Mas, ao entrar em sua pequena casa, ela consegue perceber que aquele ambiente a ajudou a redefinir seu conceito de lar.
Com cinco anos de idade, certo dia ela acordou e, com os olhos semi-abertos, ela enxergou o quarto de criança dos seus sonhos: ao lado de sua cama havia um criado mudo branco com duas gavetas que servia de assento para um lindo urso de dormir que tinha a cor de mel. As paredes eram coloridas com sua cor preferida: o lilás que se confunde com um tom fraco de rosa. Havia brinquedos por toda parte e um tapete macio e aconchegante cobria o chão... A alegria invadiu o pequeno coraçãozinho dela, quis pular da cama e correr para o seu mundinho perfeito... Abriu bem seus olhos e viu tudo desmoronar. As paredes ao redor eram cinzas, a cama em que estava não passava de um mero colchão doado no chão de madeira opaco. Ao olhar para cima, via aranhas de pernas intermináveis passearem pelo teto. Do seu lado, sua mãe dormia e ao lado de sua mãe havia um homem que não era seu pai. Ela tinha muito medo de olhar a cena real. Sua imaginação, construída através das mais belas histórias infantis não conseguia assimilar a nova realidade que se apresentava a ela. Onde estavam os seus brinquedos? Tudo o que tinha eram cópias imperfeitas de sua vida que tentavam assumir um papel principal em sua vida. No entanto, com apenas cinco anos, ela já era capaz de saber quem era e o que queria, embora não tivesse consciência disso.
Quinze anos depois, ela entra em seu quarto e sorri. Observa alegremente aquelas paredes em um tom lilás que lembra o rosa às vezes. Seus livros estão por toda parte - substituindo os velhos brinquedos. Adesivos de parede    refletem a criatividade de seu ser e a vivacidade de cores de sua nova vida. Ela está feliz. Seu espaço, aos poucos, se transforma na casa dos sonhos. O aconchego procurado ao longo de tantos anos está tomando formas reais. Logo, tudo estará pronto para que todos os temperos e sabores comecem a serem testados em sua cozinha, para que diversos filmes sejam vistos de seu sofá azul, para que a cafeteira e o forno elétrico produzam o café e o pão de queijo quentinho que acompanharão uma boa leitura, para que as suas pequenas irmãs a venham visitar, para que receba as pessoas queridas de sua vida e para que, enfim, possa dizer que criou o seu lar.
E sua mãe tinha razão. Aos dez anos, a menina queria que o seu lar fosse constituído de uma casa com um pai e uma mãe e a genitora, irritada, perguntou se ela seria feliz tendo que viver com dificuldades e entre duas pessoas que brigavam a maior parte do tempo. Na época, ela respondeu com um sim indeciso. E hoje ela sabe que foi apenas um desejo infantil de uma menina mimada pela sua própria imaginação. Seu destino foi outro e é outro. Hoje ela sabe disso. Agradece todos os dias a Deus pelo amor e proteção que recebeu de sua outra mãe, que a está ajudando a construir o seu próprio lar e a jamais deixá-la ser influenciada pelo que a maioria faz. 
A menina que imaginou um ursinho de dormir com a cor de mel não deixou de existir. Ela ainda ama a mulher que estava dormindo ao seu lado naquela manhã, mas sabe que a maneira como ambas decidiram viver são como dois rios que percorrem caminhos distintos, embora, um dia, cheguem ao mesmo mar. E, talvez, com seus cabelos brancos interiores, compartilhem o amor que as uniu no princípio.