quarta-feira, 20 de julho de 2011

Filosofia...

E ela entrou na sala. Linda como sempre. A maquiagem só ressaltava a beleza de seus traços. Quem a via pela primeira vez, jamais dizia que faltava tão pouco para ela completar 30 anos. Vestida com uma elegante roupa preta, o espaço naquela sala se tornava pequeno quando ela estava ali. Todos a admiravam. Os adolescentes, os jovens adultos, os adultos e também os idosos. Não, ela não era mãe - tampouco era casada. Era livre. Sua alma conhecia o mundo e o mundo estava impresso nela. Quando ela começava a falar, todos prestavam muita atenção, como se o que ela dissesse fosse uma preciosidade a ser guardada com muito cuidado. Era alta e esbelta e tinha um olhar penetrante. Conseguia tudo o que queria - não simplesmente por ser bonita, mas por ser dotada de uma inteligência incomparável. Seus cabelos eram perfeitos e revelavam o charme que os livros haviam compartilhado por tantos anos. 
Prestes a ganhar seu tão merecido título de doutora, Sophia acordou. Olhou-se no espelho, as espinhas ainda estavam em seu rosto, o dever de casa ainda estava em sua escrivaninha - por fazer -, a pilha interminável de clássicos da literatura ainda a esperava, as transcrições fonéticas ainda eram um enigma, a pronúncia perfeita ainda era o grande desafio a ser alcançado, a autoescola não havia acabado e seu quarto ainda era rosa. Do alto da estante, Sophia observou suas Barbies empoeiradas. Recém saída da infância, estava vivendo a plenitude de sua vida em seu primeiro semestre de faculdade. A escola havia sido um terror, algo como a Idade Média. Finalmente ela havia alcançado o Iluminismo. E agora o caminho era um misto de cultivo e colheita. As pessoas, para ela, continuavam a ser um grande quebra-cabeça que ela havia perdido a vontade de decifrar. Decidiu tomar um banho e refrescar as ideias.
Quem era aquela do sonho? Será que era ela? Será que realmente ela seria assim se percorresse o caminho que estava trilhando? Duvidava que um dia pudesse vir a ser tão bonita, mas jamais menosprezou sua capacidade intelectual, pois sabia o quanto poderia alcançar se fosse dedicada ao seu propósito. Estudar para ela sempre havia sido a ponte até seus sonhos. O barulho da água caindo era reconfortante. Enquanto pensava, Sophia acordou. O sol iluminava o quarto de seu novo apartamento. Olhou-se no espelho, mesmo recém desperta, ela estava linda. Sorriu para si mesma e foi até a cozinha preparar seu café: suco natural de maracujá e um pão integral com queijo suíço. Pensou rapidamente sobre o sonho que tivera, era estranho, agora, olhar para trás e lembrar daquela menina insegura. Sua vida estava completa. Acabou o sanduíche e percebeu que havia tempo de sobra para terminar de ler o oitavo livro da semana até o voo para Roma. Sentiu uma felicidade fora do comum, olhou-se no espelho e sorriu outra vez.

Junie Nunes de Souza.