terça-feira, 23 de novembro de 2010

Encontrei meu livro de cabeceira...

Um manual de sobrevivência

Para nós, ocidentais, que vivemos em um período de livre expressão cultural e fazemos parte de uma mistura de povos, pode ser difícil imaginar como seria a vida se, de repente, aquilo que nossas origens revelam sobre nós se tornasse o principal motivo para que nos caçassem e nos aprisionassem em campos de concentração para que a degradação humana e a morte fossem nossas únicas saídas. Ao ler O Diário de Anne Frank, editado por Otto H. Frank (pai de Anne) e Mirjam Pressler (escritora e tradutora), já conhecia o final da história da adolescente judia, mas, a cada página, intimamente, gostaria que todos os seus sonhos se tornassem reais.
Durante o período de 12 de junho de 1942 e 1º de agosto de 1944, Anne Frank escreveu em seu diário o relato de sua vida antes e durante os dias em que esteve escondida com seus pais, sua irmã mais velha e mais quatro pessoas no “Anexo Secreto”. A cada dia, relatos sobre a situação dos judeus do anexo e de como recebiam ajuda dos amigos cristãos são intercalados com os relatos sobre as notícias da guerra, as discussões políticas, as esperanças, as brigas e conflitos internos dos habitantes do anexo, as inseguranças e o medo de serem descobertos a qualquer momento. No meio deste turbilhão de manifestações, uma menina cresce e amadurece seus sentimentos em relação ao mundo e a si, trazendo reflexões que cabem em qualquer época e em qualquer lugar.
“Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda.” Existe um motivo para que essas sejam as primeiras palavras escritas no diário de Anne. Apesar de ter uma família amorosa, amigos e de ter muitos admiradores, ela se sentia sozinha. “Quando estou com amigas, só penso em me divertir. Não consigo me obrigar a falar nada que não sejam bobagens do cotidiano.”, escreveu Anne.
Anne descreveu seus sentimentos com maestria apesar de ser tão jovem. Confiou a seu diário o seu mundo, seus sonhos e esperanças. “O papel tem mais paciência do que as pessoas.” Motivada por este ditado, deu vida às páginas que passou a chamar de Kitty. Ávida leitora, as descrições de seus momentos de estudo e leituras enriquecem seus relatos, pois mesmo diante da incerteza que a guerra trazia aos judeus, ela planejava voltar à escola, praticar seus ideais amadurecidos e se tornar jornalista e escritora.
Uma das reflexões que mais me fizeram refletir e concluir tristemente que, talvez, seja verdade é quando Anne escreve que “há uma necessidade destrutiva nas pessoas, a necessidade de demonstrar fúria, de assassinar e matar”. Apesar de se sentir mal com a constatação, Anne não se desesperava. Acreditava que a vida no esconderijo era uma aventura interessante, cheia de perigo e romance, e que cada privação era algo divertido a acrescentar no diário.
O Diário de Anne Frank, durante minha primeira leitura, sem dúvida, foi um manual de sobrevivência para a vida, pois mesmo que eu não esteja vivendo em um esconderijo secreto, muitos foram os momentos em que eu me senti prisioneira dos meus próprios medos, incapaz de encontrar alguém para dividir minhas angústias, confiando apenas em uma página em branco na tela do meu computador. O livro nos faz amadurecer junto com a sua autora à medida que nos identificamos com os sentimentos e particularidades da vida que são comuns a todos nós. Encontrei meu livro de cabeceira.

Junie Nunes de Souza

Porto Alegre, 23 de novembro de 2010.