domingo, 17 de outubro de 2010

Meu bichinho virtual...

E aí, crianças da década de 90? Lembram dele? O bichinho virtual! Quem? O Tamagoshi! Eu lembrei dele recentemente devido a um acontecimento marcante em um ano da minha infância. Escrevi  até um texto sobre isso! Quem quiser conferir, é só ler o que está escrito abaixo das imagens (que encontrei no blog Ao longo dos anos)! :)











O resgate

Anos depois, eu diria que o problema se resolveria com uma atitude muito simples e direta: um pedido de permissão e explicação para a mãe sobre o motivo da agitação. Mas quem entende o que se passa na cabeça de uma criança de seis anos de idade? O fato é que ela precisava recuperar o seu brinquedo favorito, pois ele poderia morrer! Ela seria considerada uma dona desnaturada e incompetente pelo seu primo, que sempre se destacava com os aparelhos digitais, caso ele morresse.
Ela precisava de um plano e de um cúmplice, pois jamais teria coragem de percorrer aquela imensa extensão de rua com pedestres, carros e bicicletas que levava até a casa de sua tia. Ela precisava se esforçar para atravessar aquela avenida que separava simetricamente os humildes sobrados de quatro apartamentos cada, pois, do contrário, de nada teria adiantado dias e dias de preocupação com o horário da alimentação, do banho, com o apagar das luzes para que ele dormisse mais confortavelmente, com o dia de dar a injeção que o salvaria de sua doença, com a verificação de como ele estava se desenvolvendo dia após dia...
Não! Ela jamais poderia correr o risco de perdê-lo. Não após tanto amor e preocupação que ela dedicara a ele, estando sempre com o coraçãozinho aflito durante a aula para que a hora da saída chegasse logo e ela pudesse ir correndo até o seu quarto, abrir a porta do guarda-roupa, retirá-lo de baixo de seus agasalhos e segurá-lo delicadamente em suas mãozinhas, tratando logo de lhe prestar os atendimentos necessários ao apertar minúsculos botões cheios de significados misteriosos que sua mãe jamais poderia compreender.
Como encarar a mãe em uma hora dessas? Ela jamais a entendera! Não era a mãe uma ditadora cruel ao obrigá-la a separar-se do seu tão amado brinquedo durante as intermináveis horas em que era trancafiada na escola? Não. Ela estava sozinha nesta empreitada. Sua desconhecida mãe não iria entender suas razões e provavelmente demonstraria indiferença a ele e adiaria o seu resgate para quando lhe conviesse. Afinal, como ela poderia compreender sua filhinha se fazia menos de um ano que moravam juntas e nem havia sido ela quem a presenteara com o precioso brinquedo?
Decidida a tomar uma atitude e certa de seus pensamentos, a menina partiu e foi ter com sua cúmplice que brincava ingenuamente na área do apartamento.
- Ele vai morrer se a gente não ir lá.
Com certeza era o melhor argumento que tinha.
- Não sei. Pede pra sua mãe.
- Tenho medo.
- Tá.
E lá se foram as duas... Porém, antes, contaram uma mentira: disseram que iriam andar de bicicleta na rua. Correram. Correram muito. Chegaram lá esbaforidas e tudo que a dona preocupada conseguiu falar foi:
- Ela já veio?
- Não.
Maldita! Maldita hora que ela havia ido posar na casa de sua outra tia e esquecera o Tamagoshi com a sua prima mais velha. Aquela lá, de certo, não estava nem aí com os sentimentos da pequena. Pobre bichinho virtual! Como estaria ele agora? Já era hora de ela estar ali. Ah, aquela prima! As duas haviam marcado um encontro na casa dessa tia para que o resgate do Tamagoshi fosse realizado. Mas a prima estava atrasada.
As duas meninas voltaram para o sobrado e esperaram sentadas na escada que levava ao primeiro e único andar do prédio. Ficaram de certo jogando conversa fora, muito provavelmente sobre o amado brinquedo da arquiteta de todo o plano. Não deve ter dado nem 10 minutos e lá se foram mais uma vez. Outra corrida. Outra decepção. A amável dona já não tinha forças, estava cabisbaixa...
Voltavam tranquilamente, mas começou a chover forte. Isso não estava no plano. Correram o mais rápido que puderam de volta para casa. Qual não foi a surpresa da menina quando viu sua mãe de pé com aquele ar de general na porta as esperando? A mãe nem quis saber da que não era filha. Só pediu explicações - que foram dadas por uma menina envergonhada e decepcionada. A mãe não estava nem aí para o Tamagoshi, só foi falando, falando, falando e falando... Tudo que a menina conseguira distinguir foi:
- Primeiro mentiu e ainda por cima levou a outra junto! E agora estão as duas encharcadas! Já pensou se ficam doentes? Não era muito mais fácil ter pedido para mim?
Era. Concordou internamente, mas, orgulhosa que era, jamais admitiria em alto e bom som - ainda mais para aquela jovem mãe. Ofereceu a outra face e apanhou. Não no rosto, mas só sabe que foi de chinelo e, depois da vergonha que passara, acabou esquecendo-se do Tamagoshi e tratou logo de arranjar um brinquedo que desse menos trabalho. Era muita nova para assumir tantas responsabilidades.

Junie Nunes de Souza