terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dois em um...

Tenho de arrumar esse texto, mas algumas pessoas gostaram... Então, resolvi postá-lo aqui. Só para esclarecer, eu preciso dividir este texto em dois, pois há assunto para dois textos... Bem, tire suas próprias conclusões, caro(a) leitor(a)!

* * *


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS
LEITURA E PRODUÇÃO TEXTUAL
Professora Juliana Roquele Schoffen


O tempo, o caminho e eu

- Mãe, estou atrasada...
Por que repito essa frase todos os dias? Na verdade, é a primeira vez que paro para refletir sobre isso. Quando minha mãe escuta eu gritar desse jeito, dá um suspiro e responde:
- Que novidade!
E logo já vai dando sermão:
- Por que você não se acordou mais cedo? Tem que se programar!
A correria começa e as perguntas e pedidos se intensificam à medida que os ponteiros do relógio se aproximam do horário em que eu tenho que sair correndo, ultrapassar fechaduras e cadeados, respirar o ar poluído da cidade e preparar meus ouvidos para os ruídos do trânsito da Avenida Presidente Getulio Vargas. Mãe, onde está minha chave? Escovo os dentes. Você viu meu celular? Calço meu All Star. Mãe, tem dinheiro na minha carteira? Pego o casaco. Mãe, vai chover? Procuramos desesperadamente a sombrinha que não encontramos em lugar nenhum, já que provavelmente eu a perdi no último dia de chuva. Desisto de levar a sombrinha e saio, mas antes escuto minha mãe dizer que eu tenho que ser mais organizada com as minhas coisas, que eu não devo mais deixar tudo para a última hora, que eu tenho que cuidar ao atravessar as avenidas e, finalmente, ela deseja que Deus me proteja!
É. Ela tem razão. Eu até poderia ser mais organizada mesmo, mas a verdade é que eu não gosto de ser um robô: programar a rotina não é comigo. Gosto dos movimentos alucinantes que o horário apertado me proporciona, dos batimentos acelerados do meu coração ao correr para não perder o ônibus e dos cálculos absurdos que faço com o meu relógio digital de pulso sobre quanto tempo eu vou levar para chegar até a faculdade, porque, apesar de estar sempre cruzando ilegalmente a fronteira do tempo, eu não gosto de chegar atrasada na UFRGS.
Se a aula é na FACED, pego o Alvorada Protásio e chego lá em 40 minutos se não houver congestionamento na saída da Av. Manoel Elias. Quando a velocidade dos automóveis pode ser comparada à de uma tartaruga, começo a multiplicar e dividir o tempo que aparece no visor do meu relógio e, se ele pudesse, daria gargalhadas do meu desespero e mostraria os minutos passando ainda mais rápido enquanto eu assisto pela janela o meu destino nem um pouco mais próximo, pois o ônibus é incapaz de se mover.  Aí desisto das contas e começo as minhas observações que são mais profundas quando tenho que pegar dois ônibus para ir até o Campus do Vale.
Vargas, Baltazar, Manoel, Protásio, Antônio e Bento: qual será a história desses personagens reais e o que fizeram de tão importante para ganharem avenidas dedicadas a sua memória? Fico divagando e chegando a conclusões pouco prováveis sobre essas questões, mas o mais interessante das viagens que faço sobre o chão cinzento dessas avenidas é ver como as pessoas se movem rapidamente para sair de um lugar e ir a outro. Em uma de minhas viagens, achei fascinante quando o ônibus parou e o motorista desceu para ajudar uma pessoa de cadeira de rodas a se acomodar no coletivo. Na cidade em que moro, não havia presenciado esse gesto. Quando acordo do transe, olho no relógio e calculo que vou me atrasar... Mas é incrível como a essa altura da viagem já estou mais calma e certifico as minhas inquietações que não serei a única a chegar depois do horário.
Em alguns dias da semana, tenho que me deslocar do Vale até a FACED. É o percurso que mais gosto de fazer. Pego o 343 e o meu passeio pela Av. Ipiranga logo começa. Toda vez que vejo o arroio Dilúvio, eu lembro que seguidamente algum carro prova daquelas águas nada límpidas. Em seguida, meu olhar é atraído para uma construção que me reaviva a vontade de ir ao cinema e comer pipoca, o ônibus deixa para trás os meus desejos e continua o seu itinerário. Ao passarmos pela PUCRS, a nostalgia toma conta de mim: duas das minhas grandes amigas frequentam as salas de aula daqueles prédios todos os dias. Fico pensando no quanto gostaria de vê-las, enquanto sobem pessoas que lotam o ônibus. Dirijo discretamente meu olhar a elas, desejando que talvez uma delas fosse uma das minhas amigas.
Depois da aula, caminho lentamente até a parada, pois sei que o ônibus da Soul vai demorar muito para chegar... Fico invejando os moradores de Viamão, pois passam muitos ônibus dessa cidade enquanto eu fico criando fungos na parada em frente à FACED. Minha atividade enquanto isso é ler as identificações dos coletivos que se aproximam. Enquanto espero o Alvorada, passam pelo menos uns quatro ônibus da linha T7 - queria morar para esses lados... De tempo em tempo, olho para o relógio impacientemente e me pergunto por que os minutos custam tanto a passar?

Junie Nunes de Souza

Porto Alegre, 14 de setembro de 2010.