quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Saiu desse jeito a primeira versão...

UFRGS | Letras | Leitura e Produção Textual 

* Atividade de apresentação pessoal. Texto elaborado visando transmitir unidade temática, concretude, questionamento e objetividade. Primeira versão.

Por que Junie?

Carrego em meu nome uma sílaba do meu pai, uma sílaba da minha mãe e uma letra de ambos. O JU é de Jumare, o NI é de Janice e o E, com toda certeza, foi quem gerou todo o problema.
- “Juni” Nunes de Souza?
- Presente. Professora, meu nome é “Juniê”!
- Deveria ter um acento, pois se trata de uma oxítona terminada em E.
- Sim, professora.
Em minha família, a falta do acento circunflexo fez com que todos me chamassem de Juni, ao invés de Juniê. Minha mãe é que não gostou muito do apelido e culpava os funcionários do Cartório do Registro Civil das Pessoas Naturais da 3ª Zona de Porto Alegre pela falta de acentuação. Porém, após um tempo, até ela passou a me chamar de Juni, mesmo insistindo em escrever Junie com acento circunflexo.
Por essa altura da vida, eu já estava irritada com o meu próprio nome. Não havia nenhuma criança na escola com um nome próprio tão problemático quanto o meu. Ninguém acertava o meu nome e ainda por cima confundiam com Julie. Foi nesse período que decidi que passaria a odiar o meu nome e comecei a infernizar a minha mãe com perguntas do tipo:
- Por que você escolheu esse nome?
- Por que você não escolheu Bela, Pocahontas, Mulan, Cinderela, Ariel ou qualquer outro nome de princesa para mim?
Pobre da minha mãe! Então decidimos pesquisar mais sobre o meu nome... Descobrimos que é um nome de origem francesa, cuja pronúncia é realizada através da contração dos lábios em forma de “biquinho”. Pelo menos eu já sabia exatamente o que dizer para os meus amigos ao me apresentar:
- Meu nome é Juniê, é francês... Mas pode me chamar de Juni, minha família me chama assim...
Mas isso gerava perguntas do tipo:
- Tá, mas o que você prefere?
Quase sempre, eu não sabia o que responder.
Se já não bastasse carregar dois nomes em minha existência, o pessoal do Yázigi começou a me chamar de Junny (J-U-N-N-Y). Deve ter sido a partir daí que eu comecei a formar três identidades e a me revoltar com os problemas da língua.
- Mãe, vou fazer Letras.
Foi a vez dela me perguntar.
- Por quê?
- Porque eu gosto.
Na escola:
- Professora, vou fazer Letras.
- Que bom, Juniê, serás uma ótima professora.
No Inglês:
- Teacher, vou fazer Letras.
- Great, Junny! Você vai ser uma excelente teacher.
Tanta implicância acabou se transformando em amor. Admiro o meu nome por sempre fazer com que eu me lembre dos meus pais; por ter uma acidental origem francesa; por ser extremamente fácil de encontrá-lo em listas gigantescas de Julias e Julianas; por gerar certa confusão e estranhamento entre as pessoas e por não ter o acento circunflexo, que me possibilitou variar o meu nome em três formas distintas de acordo com o contexto da minha vida.

Junie Nunes de Souza

Porto Alegre, 24 de agosto de 2010.