terça-feira, 17 de novembro de 2009

Lições - I

"Identifiquei-me profundamente com a crônica abaixo... Confesso que sou grande fã da Martha Medeiros, pois seus textos dão sentido à vida."


Resistência à frustração


Quando eu era pequena, fazia uma brincadeira na piscina que até hoje as crianças fazem: tapar o nariz e a boca e ficar embaixo d'água, contando os segundos pra ver quem consegue ficar mais tempo sem respirar. É bem verdade que a gente não precisa de uma piscina para fazer este teste, pode fazer neste mesmo instante aonde quer que esteja, mas éramos crianças, éramos imaginativos, éramos mergulhadores em alto-mar.


Testar nossa resistência é uma maneira de avaliar o quanto estamos preparados para as adversidades. Serão poucas as vezes na vida que teremos que passar um tempo sem respirar, oxalá nenhuma. Mas serão muitas as vezes em que teremos que testar nossa resistência à frustração.


Um... dois... três... quatro... serão mais do que segundos, mais do que minutos ou horas trancando a respiração, lutando para não explodir. Algumas frustrações levam dias ou meses para serem elaboradas dentro da gente. As coisas quase nunca saem como a gente planejou, há sempre o elemento surpresa, que desencaminha nossos sonhos. É preciso ter muito pulmão para respirar fundo e muita cabeça fria para não botar tudo a perder.


A gente manda um e-mail amoroso e extenso e recebe uma resposta fria e lacônica. A gente organiza uma festa na nossa casa e só aparecem três gatos pingados. A gente combina de ir para a praia no feriadão e pinta, de última hora, um plantão no trabalho. A gente economiza anos para comprar um carro e quando está com o dinheiro na mão, tem que emprestá-lo para alguém que ficou repentinamente doente na família. E as frustrações de amor? Uma atrás da outra. Parece que ninguém reage como a gente espera. Todos uns desmancha-prazeres.


Os que não têm muita resistência saem atropelando, cortando relações, dramatizando o que nem é tão dramático assim. Depois mergulham em longas depressões e custam a voltar à tona. Já os mais resistentes sabem que nada é tão sério nesta vida, a não ser ela própria, a vida, e tratam de aproveitá-la com mais serenidade e paciência. Contam até três, até dez, até vinte, e basta de autoflagelação: voltam a respirar.



Martha Medeiros


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Os outros, nós, você e eu...

Por que é tão difícil relacionar-se com as pessoas que amamos? Será que é por que nós as conhecemos bem? Será que é por que nós gostaríamos de conhecê-las melhor? Será que é por que não entendemos como elas podem não nos amar o quanto nós as amamos? Tudo isso é tão complicado... Tenho delírios noturnos de pensamentos que me vêm à cabeça para tentar encontrar a solução para esse dilema.

Sim, a vida é muito mais que isso... Tem pessoas que não esquentam a cabeça! Vivem intensamente muitas relações, experimentam e numa dessas se encontram, namoram, casam, têm filhos... Enfim, aquela coisa tão cotidiana! Não digo que os julgo... Na verdade, julgo a mim mesma. Por que eu sou um ser tão impossibilitado de ser normal? Eu assassino todos os dias o direito de não pensar que naturalmente temos. Acredito que o meu sistema nervoso central o odeie. Ele age tão pura e insuportavelmente pela razão!

Os outros devem me chamar insana quando na verdade o que me falta é exatamente essa loucura de ser. A minha se perdeu... Ou nunca nasceu. Mas o que importa realmente para mim?

Não sei, não sei... Às vezes amo o meu jeito de ser... Às vezes sinto-me rejeitada pela raça humana. Será que isso é anormal? Às vezes pareço que sou obra de arte admirável, mas intocável... Pois simplesmente não me encaixo em nenhum grupo. Tenho a vã esperança de que possa encontrar seres semelhantes na vida acadêmica, mas já fui advertida que é provável que eu carregue esse sentimento de singularidade pelo resto de minha vida... E o que me resta?

Não quero parecer presunçosa, não sou... É que penso, penso demais, penso a todas as horas do dia, reflito minuciosamente sobre tudo e me perco no vazio que as respostas que não se completam me deixam. É como nadar, nadar no mar em direção à costa e nunca atingi-la. Enquanto eu me vejo assim, escrevo... Pois esta, sim, parece ser a única forma de aliviar minha inquietação.